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Fim de tarde na Paulicéia
(Darayavaush)
Já há algum tempo, queria assistir um show do Jorge Mautner, nem que fosse só para ouvir aquele singular violinista nietzscheano tocando seu Maracatu Atômico, o resto seria lucro. Pois a oportunidade surgiu. Inventei o cais e lancei-me rumo à Faculdade de Medicina da USP, local escolhido para o evento. Desconhecendo a geografia do local, caí subitamente numa palestra sobre drogas (contra o uso de drogas, naturalmente). O show era do outro lado da rua. E eis que, do outro lado da rua, encontro o Jorge Mautner em pleno aquecimento, numa atmosfera de intensa "maresia". A rua separava universos diametralmente opostos, irreconciliáveis. Ficava óbvio que o público-alvo da palestra não tinha a palestra como alvo. Faltavam ainda uns minutos para o show. Decidi conhecer as instalações da faculdade. Em instantes, lá estava eu numa sala escura, fria e deserta, diante de restos de vida em vidros com formol. O horror! Voltei para o Mautner. O show foi ótimo. Na saída, peguei um táxi. O motorista, olhando para o cemitério em frente, comentou: "Mooo-mooo-moooo-moorre gente pa-pra-caramba, né?" Concordei: "Morre bastante, amigo." Ele: "sss-só que pa-pra cada um que na-nasce mo-morrem do-dois ou te-três..." Uma afirmação inegável. Ele prosseguiu:
"Eu me-mesmo já fiz do-dois! E fo-foi numa taa-tacada só."
"Parabéns, amigo!"
"Só que-que fo-foi com uma vaaaa-vaaaa-vaaaa-vaaa-vagabunda...."
"Pô, amigo, de repente nem são seus."
"Ela fez e-e-exa-exame de sa-se-sa-sangue."
"Mas exame de sangue não comprova nada, deve ser sacanagem".
"Só que eles saaaaa-saaa-ssaaaa-são a minha cara!" Chegamos em casa, paguei a corrida, e desejei-lhe boa sorte. Sob uma fina garoa, a tarde caía como um viaduto na cidade que nunca pára.
Escrito por Ana Ramiro às 15h00
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Revista Coyote

Revista Coyote número 13
(fonte: site Cronópios)
Nova edição da revista de literatura e arte traz dossiê com Paulo Leminski, a prosa inédita de David Foster Wallace, poetas beduínas árabes, ensaio sobre poesia brasileira, por Cláudio Daniel, poemas do escocês Edwin Morgan traduzidos por Virna Teixeira, e muito mais.
COYOTE, revista editada em Londrina (PR), chega ao 13° número mantendo a proposta de enfocar o lado mais radical da literatura brasileira e de outros países. Este número traz um dossiê com Paulo Leminski (1944-1989), uma das personalidades mais instigantes da literatura brasileira contemporânea, em entrevista inédita concedida em 1982, além de crônicas e traduções pouco conhecidas, manuscritos e trechos de obras como Metaformose e Catatau.
O número também publica, pela primeira vez no Brasil, a prosa da David Foster Wallac e, considerado o "novo Joyce" da escrita norte-americana, traduzidos por Caetano Waldrigues Galindo, além de apresentar, em primeira mão, a poesia do escocês Edwin Morgan, traduzido e apresentado por Virna Teixeira. Recuando no tempo, Alberto Mussa apresenta quatro poetas beduínas árabes dos séculos 16 e 17, traduzidas diretamente do árabe.
Além das fotos de Edson Kumasaka, que também assina a capa, Coyote 13 apresenta os belos poemas visuais de Marcelo Sahea, a prosa de Péricles Prade, Silvana Guimarães e poemas inéditos de Paulo de Toledo, André Monteiro, do chileno Francisco Véjar, traduzidos por Cristiane Grando, e da paranaense Josely Vianna Baptista. Cláudio Daniel faz um levantamento crítico da poesia brasileira recente em seu ensaio "Pensando a Poesia Brasileira em Cinco Atos".
COYOTE 13 // 52 pgs. // R$ 10
Contatos: (11) 37313281 e (43) 33343299
COYOTE é uma publicação da Coyote Edições, editada pelos poetas Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak e Ademir Assunção. Projeto gráfico de Marcos Losnak e Joca Reiners Terron. Tem periodicidade trimestral e distribuição nacional (em livrarias) pela Editora Iluminuras.
Escrito por Ana Ramiro às 10h50
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O templo tomba no cotovelo atado
do azulão que atroa frente à falange
jarro oleado
repositório de Caiabi
único pássaro branco que volteia pés firmes no chão
antítese do equilíbrio entre tons de breu e alume
no caminho apiloado de nuvens navalhas e um sabor agridoce de primavera.
Escrito por Ana Ramiro às 03h10
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