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O GRITO
(Ana Ramiro)
Veste-se de mágoas
e os pés nus, finca-os
na inconstante paragem.
Habita o jaspe anódino,
Aquário de florespumas
por entre mão apáticas.
Em silêncio, compartilha
o fogo que consome a mortalha,
cinza de odres em brasa
incitando vertigens,
provocando miragens.
Singra o sangue
de um manancial verborrágico,
sorve homens liquefeitos
feito víboras e os vomita.
Ergue construções
como quem rompe veias
a dentadas,
e sempre que a rota
dos ventos serpenteia,
divide o catre com quem
tenha lhe oferecido
lume e ceia.
Verte-se em mares.
Escrito por Ana Ramiro às 03h07
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(foto: Joseph Astor)
MEIAS VERDADES (Ana Ramiro)
Sândalos e róseos, os aromas da conquista, mas sou dada a zombarias e pulo etapas
vou logo aos tapas
Odores reais me fascinam, livres de máscaras aromáticas, águas de cheiro que não lavam
frascos de hipocrisia
Abomino personalidades escondidas sob cremes anti-sinais. Fujo de agulhas que não tecem, injetam, e de vontades que não sejam minhas
Prefiro o odor natural, ir direto ao cerne, sem pudícia
(pura malícia)
Cara limpa jogo aberto aventura de viver
nua e crua
Escrito por Ana Ramiro às 00h56
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O passado no freezer
(Darayavaush)
Na construção de redes de metrô em cidades como Roma, Atenas ou Cidade do México, a cada metro que se avança, corre-se o risco de encontrar um novo vestígio arqueológico. E, toda vez que isso ocorre, a pergunta a ser feita é: ciência ou vida? Passado ou presente? Engenharia ou arqueologia? Essa pergunta é relativamente nova na história das idéias. Dizem que na primeira construção do Vaticano foram utilizadas pedras do Coliseu. Diversas civilizações do altiplano mexicano tinham o hábito de cobrir suas pirâmides com uma nova camada de pedras a cada 52 anos, que correspondia ao ponto de encontro entre os calendários civil e religioso. Aborígenes no interior da Austrália continuavam pintando suas cavernas até um passado muito recente, cobrindo com novas tintas algumas imagens de milhares de anos. A vida era dinâmica, o diálogo com os deuses não podia cessar. Um dia chegaram os arqueólogos. Viram aquelas pinturas no interior das cavernas. Fizeram a datação, e constataram que tinham milhares de anos. Era preciso preservar aquele patrimônio. Os índios foram confinados em uma reserva, longe dessas cavernas. Segundo os sábios arqueólogos europeus, tratava-se de uma tribo demasiado primitiva para compreender o valor daquele legado. Afastaram os aborígines de seu templo sagrado. Botaram ali uma catraca, e hoje turistas de todo o mundo apreciam esse passado congelado. A ciência venceu a vida.
Processo semelhante ocorre com a preservação da natureza. Muitas vezes impede-se às populações locais usufruir de uma riqueza que pertenceu aos seus antepassados. Falta aos ambientalistas uma visão humanista. Mas essa é outra história.
Como afirmou aquele que foi provavelmente o maior historiador brasileiro, Sérgio Buarque de Holanda, no prefácio a Visão do Paraíso: "esta espécie de taumaturgia, não pertence, em verdade, ao ofício do historiador, assim como não lhe pertence o querer erigir altares para o culto do passado. Se houvesse necessidade de forçar um símile, eu oporia aqui à figura do taumaturgo a do exorcista. Não sem pedantismo, mas com um bom grão de verdade, diria efetivamente que uma das missões do historiador, desde que se interesse pelas coisas de seu tempo - mas em caso contrário ainda pode se chamar historiador? -, consiste em procurar afugentar do presente os demônios da história".
Gostar do passado não é privilégio dos museus; congelá-lo, cabe aos ignorantes.
Há alguns anos, a NASA desenvolveu uma nave espacial capaz de identificar vida inteligente. Antes de lançá-la rumo ao espaço ignoto, lançaram-na em missão de teste ao redor da Terra. Resultado trazido pela nave: somente foi localizada vida inteligente na Austrália. Até hoje não se sabe se os inteligentes eram os aborígenes, os coalas, os cangurus ou os ornitorrincos.
Escrito por Ana Ramiro às 00h17
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Como não enlouquecer em condomínios
(Darayavaush)
Os primeiros hominídeos, do grupo Australopithecos, surgiram há cerca de 10 milhões de anos. O Homo Erectus, nosso irmão mais próximo, tem algo como 1,5 milhão de anos. O Homo Sapiens, filho caçula do clã, tem apenas 150 mil anos. As primeiras cidades foram o principal legado do Neolítico, quando o homem passou de caçador a criador, de coletor a agricultor, do nomadismo ao sedentarismo. Isso ocorreu há 5 mil anos. E foi somente no século XX que a população urbana superou a rural. Ora, esta linha do tempo nos dá uma idéia de que a vida nas cidades é algo extremamente recente para a espécie humana. Não sei quanto a vocês, mas eu me sinto estrangeiro na selva de pedra. Prefiro o verde ao cinza e sinto falta do cheiro da terra molhada.
Se tudo isto é tão recente, mais novo ainda é o conceito de condomínio vertical. Os prédios obrigam-nos a desenvolver novos padrões de convívio e habitabilidade. Como microcosmos, os edifícios têm seu próprio governo (o síndico é o chefe do executivo), um espaço de representação democrática (as assembléias), sua constituição (regimento interno). Os condôminos são os cidadãos e a voz da maioria é soberana.
Bem, voltemos ao mundo real. Antes de nossa vinda para Brasília, morávamos num prédio num bairro considerado nobre (Higienópolis) em São Paulo. A nobreza do bairro manifestou-se logo na primeira semana após a mudança, quando a área de serviço de nossos vizinhos, em frente à nossa (característica de alguns edifícios com mais de 30 anos de idade), foi tingida por um pacote de fezes. Um ato terrorista. Fomos os primeiros suspeitos. Como agravante, éramos recém-chegados, e portanto, de moral duvidosa. Para piorar a situação, os antigos moradores do nosso apartamento eram de origem árabe e as vítimas do atentado, um casal na 3ª idade, judeus ortodoxos. Sentimo-nos em plena Cisjordânia. Nós, como católicos não-praticantes, éramos simplesmente réus. Como o episódio nunca foi explicado, creio que seremos eternamente suspeitos.
A voz da maioria é soberana e a unaminidade é burra, como dizia o Nélson Rodrigues. Nem mesmo as palavras estão livres de suspeitas. Nosso edifício chamava-se Aché. Um nome francês (leia-se "achê". Pasmem: o síndico recebeu todo o apoio do zelador (um senhor evangélico) para remover o acento agudo que, pela suposta africanidade que conferia ao nome (Axé), colocava em risco a ilibada reputação do edifício. Passamos, então, a habitar o Edifício Ache e quando as visitas me perguntavam o que havia ocorrido com o acento, limitei-me a dizer que caiu. Preferí omitir as duas razões que levaram nosso síndico a censurar o Aché: ignorância e preconceito.
Preocupados com o crescente delírio de nossos coabitantes, pensamos em nos mudar para um condomínio horizontal. Sim, um condomínio de casas traria a distância necessária e suficiente para viver tranquilamente, longe da loucura alheia. Porém, um fato bizarro, relatado por um parente que reside em um condomínio fechado no interior de São Paulo, mostrou-nos que a Pasárgada só existe em verso. Seu vizinho ameaçava processá-lo sob a alegação de que o latido de seus cães lhe tirava o sono. Bem, só nos resta parafrasear Sartre: o inferno são os cachorros dos outros.
Escrito por Ana Ramiro às 10h43
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PIETÀ PAGÃ
(Ana Ramiro)
Le petit fils me confidencia:
- Vou cortar o cabelo.
Indignada, esbocei comparações esdrúxulas
como uma pálida Dalila.
Ele riu.
Argumentei que não o fizesse:
- Por mim!
(a defensora de belas melenas e reminiscências pueris)
Ele, resoluto.
Era um menino lindo, de grandes olhos negros,
buscando sua essência viril.
Ouvia ópera e fumava um tanto blasé.
Se pudesse, embalaria-o em meu colo,
essa pequena criança que não temia o escuro.
Escrito por Ana Ramiro às 02h00
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(crédito pela imagem: Fábio Fraccarolli)
TIBURCIANDO
(Darayavaush)
Lá em Guará (*), sou amigo do seu Tibúrcio. Arrendatário de uma pequena fazenda, dono de um sotaque caipira que trouxe de sua infância no interior das Geraes e de uma calva branca, como um queijo mineiro - pois nunca viu sol, protegida que sempre esteve pelo chapeuzinho de palha- seu Tibúrcio é mesmo um sujeito que poderia morar em qualquer livro do Guimarães...
Sua vida sempre foi vivida no tempo cíclico (que se opõe ao tempo linear burguês, tempo de "progresso"), cada dia consistindo em tirar leite das vacas antes do sol nascer, levar as vacas pra lá pela manhã e, no final do dia, trazer as vacas pra cá.
Durante o dia, é só filosofia no seu estado mais puro. Trafegando por temas que vão da criação do mundo ao apocalipse, passando pela existência de Deus ou pelos paradoxos do progresso e do consumo, seu Tibúrcio não deixa escapar nada. Adoro conversar com ele (nem cito sua esposa e filhos porque senão iria longe...), aprendo muito, repenso conceitos sobre a sociedade, viajo ao Brasil colonial e me afasto de tudo o que é produto da civilização - o que é essencial para melhor percebê-la ( já dizia Nietzsche sobre o "afastamento necessário").
Seu Tibúrcio é um filósofo analfabeto, desses tantos que vivem pelo interior do Brasil. São capazes de ouvir a voz do vento (ou o recado do morro), linguagem esta tão estranha a nós, bichos do asfalto. Uma cusparada no chão de terra batida do seu terraço, uma mascadinha para assentar o cigarrinho de palha e ninguém mais segura o Tibúrcio quando ele dá pra pensar. Ele não se baseia no mundo dos livros, não passou pelo Iluminismo, nem pelo heliocentrismo.
Para ele, as dúvidas podem ser do tipo: "Meu 'fio', você que é estudado, me diz uma coisa: esse mundão nosso de Deus... tem fim?". E dá-lhe explicar que o mundo é esférico, como uma laranja e que se "eu for em linha reta, seu Búrcio, e descer por onde acaba o horizonte, depois de onde a vista não chega, vou andar, andar, passar aqui por debaixo do curral, lá perto do Japão, andar mais um pouco e depois aparecer lá no outro horizonte, ali detrás, dando então uma volta no mundo". E ele, sorumbático: "É, rapaz, se a gente começar a pensar demais, a gente fica louco!".
Assim é o Tibúrcio. O resto é o resto.
(*) Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, estado de São Paulo.
Daraiavaush, diplomata, engenheiro, (quase) historiador e prosador dos bons, passa a ser um "outro eu" deste blog.
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Escrito por Ana Ramiro às 01h43
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