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LIÇÃO DO VENTO
(Ana Ramiro)
Experimentar o vento em nuances é faculdade das mais sábias. O vento tem sabor de palavras dispersas, microcosmos de frases, lâminas em movimento.
Entender o que ele diz em rajadas ou através do não-dizer, no silêncio, é tangenciar a linha do tempo, saborear a própria história em doses homeopáticas.
Tocar o vento é o mesmo que tocar a luz, sentir o arfar de asas percorrendo o sinuoso caminho alveolar ou compartilhar as reminiscências de um beijo.
Alimentar-se de vento não é sexo, nem sombra ou lamento.
Viver de vento é permanência.
Morrer é pensamento.

Escrito por Ana Ramiro às 18h40
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Brasília, terra da exclusão
(Darayavaush)
O tema da exclusão na capital federal já serviu de inspiração para inúmeras teses acadêmicas. No entanto, não é necessário possuir um bacharelado em arquitetura e urbanismo para se assombrar com o que se vê ao redor. Aliás, boa parte de Brasília foi “feita para impressionar”, como é o caso do Eixo Monumental. Os ministérios se situam de forma simétrica ao longo dessa que, segundo dizem, é a avenida mais larga do mundo. Sim, mais larga que a famosa “9 de Julio” portenha, considerando evidentemente o imenso gramado entre as pistas Sul e Norte da avenida brasiliense. E para que um gramado tão largo entre os ministérios e em frente ao Congresso, perguntam meus olhos? Teria o urbanista imaginado um espaço para a participação popular? Nesse caso, teria sido necessário também imaginar um povo, diz meu coração, uma vez que a nova cidade fugia de sua gente. Claro, no futuro obviamente haveria um povo. No entanto, a cidade mal engatinhava, e esse imenso gramado foi muito útil ao controle de eventuais manifestações populares pelo regime militar. Assim como a Paris reformulada por Haussman, Brasília mostrava-se perfeita para evitar uma nova queda da Bastilha.
Existe em Brasília uma padronização na dimensão e na altura dos edifícios residenciais. Aqui, a vocação comunista de arquitetos e urbanistas também se faz presente. Existem três padrões básicos, que se repetem ad infinitum. São eles: os prédios residenciais de 6 andares, supostamente habitados pelos homens-bons; os prédios de 3 andares – geralmente sem elevador – onde vivem os menos favorecidos (o termo é razoavelmente preciso, uma vez que vivemos na cultura do favor); finalmente, os setores comerciais. Mas um setor comercial é um dos 3 tipos de prédios residenciais? Sim, embora aqui não tenhamos a genial mão do arquiteto, mas a mão invisível do mercado. São reservados aos ainda menos favorecidos, que não puderam morar nos prédios de 3 andares. Na realidade, esta distinção entre homens-bons, menos favorecidos e ainda menos favorecidos, muito embora caricatural, serve a um propósito, qual seja o de esclarecer que o modelo pretensamente comunista de Brasília supõe que alguns cidadãos são mais iguais que outros. No entanto, nada se equipara ao contraste entre Brasília e algumas de suas cidades-satélite. Em paragens como Paranoá, perto da represa que deu origem ao lago artificial, não há o traço do arquiteto. Ali, tudo é caos, tudo é improviso. Ruas sem asfalto, casas sem água ou esgoto. Vive-se ao deus-dará. Eventuais apologetas diriam que os cérebros ilustres dos anos JK não poderiam prever a dimensão da desigualdade no Brasil do século XXI. Puro engano. Fotos da época da inauguração de Brasília já mostram uma favela em pleno Lago Paranoá – obviamente, no período em que aquele sertão ainda não virara mar -, a apenas algumas centenas de metros do Palácio do Planalto. Aquele núcleo populacional, uma vez submerso, mudou-se para trás da represa, dando origem à atual cidade de Paranoá. Portanto, o lago embelezou Brasília de forma inusitada. A miséria não foi mitigada, foi afastada para longe das retinas dos “eleitos” – em sentido bíblico-eleitoral - para habitar a terra prometida de onde jorrariam o leite e o mel. Hoje, um mergulho no lago Paranoá certamente seria frutífero aos arqueólogos de plantão. Desde que, obviamente, se interessem pelas coisas de seu tempo – utilizando as palavras do mestre Sérgio Buarque de Holanda.
Concluo minha fábula compartilhando um fato trágico. Não, ninguém morreu, talvez apenas a fé de algumas crianças em um futuro melhor. Era uma vez um grupo de retirantes que acampava perto de uma quadra habitada pelos homens-bons de Brasília. Os pobres-diabos estavam de passagem, como aliás soíam fazer por toda a vida. Os desvalidos tinham um punhado de filhos. Filhos esses que descobriram, maravilhados, um pequeno parque freqüentado pelos filhos dos homens-bons, doravante chamados crianças. Os filhos dos indigentes, doravante chamados menores, não puderam resistir à magia do balanço, do escorregador e da gangorra. Brincaram. Viveram. Existiram. Esqueceram-se de que eram menores e de que não trouxeram as credenciais para gozar esta vida. Pois. E de repente, quando já lhes parecia que o tempo era indolor, eis que a realidade mostrou sua face mais tacanha e egoísta. Uma, duas, três viaturas policiais chegaram ao local do crime de pensar que se é o que não se é, sirenes a gritar, e a farra acabou. Restaurou-se a ordem, como de hábito. Disseram-lhes que os direitos dos “menores” acabavam onde começavam os direitos das “crianças”. O que era como dizer que aos menores restava o nada. Absoluto. Foram. E não mais voltaram. Hoje crescem, e se preparam para um rito de passagem que os aguarda: ao completar 18 anos, deixarão de ser menores para investirem-se elementos. E viva o futuro.
PS.: embora absurda, a distinção entre menores e crianças já ganhou ares de normalidade na sociedade brasileira. Um jornal de Minas Gerais publicou a seguinte manchete: “Menor assalta criança em bairro de classe média de BH”.
Escrito por Ana Ramiro às 19h51
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DESEJOS DE GAIA
(Ana Ramiro)
Rude amazona eu sou, a que em teus sonhos vagueia, a que procura teu sexo, e sôfrega, lambe teu ventre, morde teu lábio e orelha, qual indigitada serpente.
Sou bela, a meu modo, fera fugidia morando no caos da tua mente. Não tenho nome, nem sombra ou mesmo dono, sou apenas boca, seio e coxas valentes, (a te cavalgar noite após noite).
E sendo eu, assim tão amante, espectro de fêmea liberta e ardente. Por que insistes em tua vida deserta? Por que recuas e me deixas ausente? Por que, amado, despertas?
Escrito por Ana Ramiro às 02h25
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UM FILME...FALADO
(Ana Ramiro)
Após algumas tentativas frustadas, finalmente assisti "Um Filme Falado" de Manoel de Oliveira. Minhas expectativas, antecipo, não eram as melhores, já que, da filmografia do diretor português, gosto unicamente do filme com Marcello Mastroianni, "Viagem ao Princípio do Mundo", que assisti com olhos psicanalíticos, uma vez que a história do filme se mistura à história de minhas próprias raízes lusitanas, além do viés "tiete", já que considero o Marcello um dos homens mais bonitos do cinema.
Entre os comentários da platéia de amigos que já haviam assistido ao filme, empate técnico. Alguns odiaram e, dos que apreciaram o "diário de bordo" manuelino, muitos acabaram tecendo mais relatos sobre suas próprias viagens aos locais mostrados no filme do que enfatizaram as qualidades da obra.
Do filme, de que gostei pouco, com suas longas e enfadonhas tomadas didáticas sobre a história das civilizações ocidentais (sim, porque a empreitada do "navegador" Manuel de Oliveira não tomou o caminho das Índias, nem tampouco da China, civilizações esquecidas pelos livros de história do Ocidente), ficou-me a impressão de que teríamos hoje um novo Cabo das Tormentas, situado em um ponto desconhecido do mundo árabe. Nada mais maniqueísta, barroco e lusitano.
No navio comandado pelo americano John Malkovitch, vemos um desfile de passageiras ilustres, como a francesa Catherine Deneuve, a italiana Stefania Sandrelli e a grega Irene Papas, cada qual cultuando suas glórias passadas, que vão se confundir com as glórias de suas pátrias. Vemos o império greco-romano num diálogo sincrônico com a França da Revolução Francesa, todas é claro, cheias de charme, ironia e despeito para com o jovem comandante,numa alusão à atual hegemonia norte-americana, tão clara como as águas do Egeu.
Não tecerei comentários sobre a ótica discriminatória do diretor português, tão somente porque com os seus 90 e tantos anos, Manuel de Oliveira deixa de fazer cinema, para fazer a história do cinema, nem tampouco, expressar a minha surpresa pelo final desprovido de sentido, que nada explica, nada suscita.
Muito embora "Um Filme Falado" não tenha representado para mim, mais do que uma sessão da tarde o faria, foi por intermédio dele, que descobri com longos anos de atraso, tenho que admitir, as atrizes Stefania Sandrelli e Irene Papas. Duas musas da década de 60, de filmes do naipe de "C´eravamo tanti amati" e "Zorba, o grego", que acabo de assistir, estes sim com prazer, no conforto de meu home-theater.
Escrito por Ana Ramiro às 00h40
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MOSTRA PRIMEIROS FILMES - ALIANÇA FRANCESA DE BRASÍLIA

Confira a programação
Aliança Francesa de Brasília - Cultural www.afbrasilia.org.br tel: (61) 3242-7500
Escrito por Ana Ramiro às 22h42
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"Adoro descobrir autores novos. O João Cabral de Mello Neto dizia que, na idade dele, não podia mais se dar ao luxo de tentar conhecer gente nova. O tempo passara a ser caro : se ele dispunha de três horas livres, preferia reler Shakespeare a arriscar um autor novo. Eu, que tenho apenas 30 anos, posso - e gosto - de ler gente nova. Olha esse poema, escrito por uma moça chamada Ana Ramiro, que chegou até mim pelo singelo fato dela ser esposa de um colega. Parece as coisas da Martha Medeiros - quando a Martha acerta a mão. "
Classificados (Ana Ramiro)
Procuro um amante de moura estrutura, com pele morena e rosto angulado, que eu lamberia, tal qual minha cria.
Um amante de olhar fugidio, que saiba que o olho, do corpo é o pavio, atiçando a centelha, me aquecendo o vazio.
Que na curva da nuca, obtusa, incompleta, despertasse um desejo acre, de coisa torpe, que em mim se encerra.
Que a dois, ficássemos de quatro, sem culpas nem penas,
apenas as suas em minhas pernas, esse amante virgílio, vadio, poeta e que eu também o penetre com minhas palavras.
Que ponha o pingo nos is e o pau nos ós e sobretudo, que seja comprometido... com meus desatinos.
Quem dá mais? -----------------------------------------
"O mais engraçado é que o colega em questão tem um jeitinho quietinho, convencional, bom moço. E aí o suposto quietinho me aparece casado - e bem casado! - com uma mulher que escreve coisas dessas! Estou começando a achar, a concluir, que meus coleguinhas de profissão não são quietos e certinhos, mas apenas discretos ... o que me faz sentir um respeito renovado por eles." |
Ana Beatriz Nogueira, em seu blog:
Escrito por Ana Ramiro às 17h12
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"Se você quer entender a lógica da nossa relação com a carne, olhe bem para o bife no seu prato". F.B.

Ilustração de Ralph Goings
For Decades of Realism: http://www.ralphlgoings.com/
MANIFESTO DESEJO
(Ana Ramiro)
Morte aos hipócritas e suas hóstias consagradas à luxúria sob saias recatadas. Açoitem-se os doentes d´alma, aqueles que se julgam seguidores dos costumes e das crenças nos homens. Vilão é o tempo debutante, preso ao jugo da inocência. Evoé a Liberdade, deusa que ouve os lamentos do mundo e que desata os nós dos grilhões e quimeras da carne. Lanço-me ao abismo das possibilidades e que se afastem de mim, doravante, os títeres de louça. Rompo-os aos murros de cólera. Perpassa-me um calor de fogo são, santo e redentor, que me aquece as costas e o ventre. Louvo a estóica força das mártires intocadas, mas não me uno a elas em ideais de grandeza. Observo-as no leito,impassíveis pedras de gelo. Quero antes a linha sinuosa e cheia de atalhos, a curva barranqueira que me atire em mil braços, sem rostos, nem imagens ou quaisquer semelhanças. Quero a vida jorrada do caos, porque sou uma Estrela nascente, estrela-demônio da Constelação de Perseu e nada mais importa, a não ser a luz que chega aos teus olhos.
Escrito por Ana Ramiro às 16h26
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(Michel Leiris por Francis Bacon)
A brutalidade do fato
Alain Jean- André in "Chroniques de la Luxiotte"
Existem pequenos livros que nos iluminam, excedendo obras volumosas e complicadas. Numa tarde de inverno chuvosa - sem vontade alguma de por o nariz para fora de casa - entreguei-me à leitura de um livro assim, com textos de Michel Leiris consagrados à Francis Bacon. Precisamente, três estudos do escritor, uma entrevista com Jean Clay e cinco cartas inéditas do escritor ao pintor.
No livro, Leiris explica porque os quadros de Bacon, em seu parecer, são "absolutamente gritantes de presença", "tão vivos quanto a própria vida", excedendo o que é anódino ou anedótico e projetando sobre a tela, com um realismo paroxístico "sem halo metafísico nem subentendido psicológico", o ser humano no que este tem de mais abrupto e fascinante.
O artista não rompe completamente com a tradição pictural. O retrato de Inocente X por Velasquez, Cristo levando a cruz, de Grünewald ou fotografias foram ponto de partida para numerosos de seus quadros, revelando realidades fáticas, impossíveis porém de serem consideradas dentro de um espírito de inteira objetividade. Realismo portanto, mas também lirismo: duas tendências opostas que produziram o seu "tradicionalismo perturbado".
Os quadros de Bacon, de uma modernidade imediatamente legível, distam de quaisquer realidades mitológica, ideal ou atemporais. O artista constrói "uma realidade nova que tem mais peso do que uma imagem" ou melhor, cria "um realismo que tende menos a figurar do que instaurar o real". Distante ainda do expressionismo, do seu aspecto caricatural, mas com uma virulência de fatos que se torna uma virulência temática, Bacon põe em destaque uma realidade da qual o ser humano do Ocidente moderno tenta escapar: o "seu total isolamento", revelando o caráter trágico da condição humana.
(tradução livre por Ana Ramiro)
Escrito por Ana Ramiro às 15h50
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TAUROMAQUIA
(Ana Ramiro)
No oco da boca
paira um segredo mal guardado,
embotado pela fêmea
que o habita.
Vórtice semi-cerrado de dentes e lábios,
magna fenda
de um universo a ser tragado,
deglutido
e novamente soerguido,
a boca regurgita.
Mas a quem caberá o jorro do abate?
Quem vai preparar a ceia do ocaso?
No oco da boca
crescem flores de fogo,
mas no fundo do olho
permanece a menina
alheia
e em chamas,
uma menina que grita.
(inspirada no livro "Espelho da Tauromaquia" de Michel Leiris)
Escrito por Ana Ramiro às 15h38
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POESIA DE PRIMEIRO
dia 1 de novembro às 19:30
Autor: Amneres, Nicolas Behr, Fernando Mendes Viana, Wilson Pereira e Luis Turiba Local: Livraria Cultura CasaPark Shopping Center - SGCV - Sul, Lote 22, Loja 4-A, Zona Industrial, Guará - Brasília-DF
Recital multimídia e autógrafos: POESIA DE PRIMEIRO
O espetáculo é uma homenagem dos poetas AMNERES, FERNANDO MENDES VIANA, LUÍS TURIBA, NICOLAS BEHR e WILSON PEREIRA a Brasília, cidade aonde vivem há, no mínimo, duas décadas e aonde construíram e/ou consolidaram as suas carreiras literárias. O espetáculo faz referência à capital da República dos pontos de vista da construção de uma utopia; de sua ousadia arquitetônica e da multiplicidade cultural que a caracteriza – traços já incorporados à poesia dos participantes.
Além do recital, os poetas estarão autografando alguns de seus livros: AMNERES - ENTRE ELAS FERNANDO MENDES VIANNA - A ROSA ANFRACTUOSA LUÍS TURIBA - BALA NICOLAS BEHR : POESÍLIA e BRAXÍLIA REVISITADA (volume II) WILSON PEREIRA - A PEDRA DE MINAS
Escrito por Ana Ramiro às 05h32
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Senhals ou a Resposta da Senhora
(Ana Ramiro)
Na intangível e crua
frase sem efeito,
lápide obtusa
mora o lodo e o não-lamento
da falange inquisidora.
Falácia adormecida exposta ao Oco
do vento e outros augúrios furtivos,
excrementos
e da ruptura da cérvix
brotam espelhos, sexos
pandemias emergentes
da trama da terra.
Arcabouço.
Escrito por Ana Ramiro às 05h04
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ESTOQUE DE RELÂMPAGOS
Há tempos que devia considerações ao livro recebido do amigo poeta (e "quase" vizinho de cerrado), Salomão Sousa. Essa omissão se deve ao fato de ser obra de peso, daquelas que a exemplo de um bom-vinho, vão deixando um retrogosto, com nuances que nos surpreedem à leitura do próximo poema. Daí a necessidade premente de um distanciamento temporal, para oxigenação e cristalização da obra.
Para mim, "Estoque de Relâmpagos" valeu por cada "gole", poesia incorpada e com personalidade. Como bem menciona o escritor Ronaldo Caggiano:
"Salomão pretende modificar, sacudir, e como um titã, vislumbra nessa rebeldia um novo estágio, em que a palavra deve não apenas ser lida, mas sentida e compreendida em toda extensão e significado."
É no interior do poema, no microcosmos, que vemos a força imagética da lírica de Salomão. Versos se intercruzam, verdades temporárias e rarefeitas (como bem demonstra o título, "estoque de relâmpagos") iluminam sentidos, numa sucessão de "insights", para logo em seguida desvirtuá-los pela comparação imediata à novos sentidos, num jogo de luz e sombras.
Que venham os trovões e tempestades! ------------------------
"Estoque de Relâmpagos" é obra premiada na terceira edição do concurso Bolsa Brasília de produção Literária, projeto da Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal.
Salomão Sousa é jornalista e reside em Brasília. Bibliografia: A moenda dos dias (1979), Susto de viver (1980), Falo (1986), Criação de lodo (1993), Caderno de desapontamentos (1994) e Estoque de Relâmpagos (2002).
Desfaço o âmbar ainda que a noite não traga o fruto nos braços E se há espetáculo eu trepo na cerca que não me quer Por mais sebo que esteja nas alturas eu subo pelas rédeas que vão me levar E se não for âmbar arremesso o relâmpago e o escuro já se desembaça Amasso a polpa do fruto apanhado sem nenhum corte O fruto só pode morrer se for enterrado na boca Liquefaço-o
E de sua calda mordida vou bebendo com minha sede Bebo com a boca e com as mãos o meu corpo fica encharcado Não há tempo de guardar restos numa cabaça Com a saúde de minhas traças destroço-o
(Salomão Sousa, in "Estoque de Relâmpagos)
Escrito por Ana Ramiro às 03h44
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