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OYÁ

OYÁ

Menina afogueada fruta verde
virada na ponta do casco
brasa que anima o toque
ventania da savana
fagulha ligeira que esparrama

É parreira alada, é Matamba
folha rebelde de Aruanda



(poema de Ana Maria Ramiro e tela de Guido Boletti)



Escrito por Ana Ramiro às 15h58
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Fim de tarde na Paulicéia

(Darayavaush)

 

           

Já há algum tempo, queria assistir um show do Jorge Mautner, nem que fosse só para ouvir aquele singular violinista nietzscheano tocando seu Maracatu Atômico, o resto seria lucro. Pois a oportunidade surgiu. Inventei o cais e lancei-me rumo à Faculdade de Medicina da USP, local escolhido para o evento. Desconhecendo a geografia do local, caí subitamente numa palestra sobre drogas (contra o uso de drogas, naturalmente).  O show era do outro lado da rua. E eis que, do outro lado da rua, encontro o Jorge Mautner em pleno aquecimento, numa atmosfera de intensa "maresia". A rua separava universos diametralmente opostos, irreconciliáveis. Ficava óbvio que o público-alvo da palestra não tinha a palestra como alvo. Faltavam ainda uns minutos para o show. Decidi conhecer as instalações da faculdade. Em instantes, lá estava eu numa sala escura, fria e deserta, diante de restos de vida em vidros com formol. O horror! Voltei para o Mautner. O show foi ótimo. Na saída, peguei um táxi. O motorista, olhando para o cemitério em frente, comentou: "Mooo-mooo-moooo-moorre gente pa-pra-caramba, né?" Concordei: "Morre bastante, amigo." Ele: "sss-só que pa-pra cada um que na-nasce mo-morrem do-dois ou te-três..." Uma afirmação inegável. Ele prosseguiu:

"Eu me-mesmo já fiz do-dois! E fo-foi numa taa-tacada só."

"Parabéns, amigo!"

"Só que-que fo-foi com uma vaaaa-vaaaa-vaaaa-vaaa-vagabunda...."

"Pô, amigo, de repente nem são seus."

"Ela fez e-e-exa-exame de sa-se-sa-sangue."

"Mas exame de sangue não comprova nada, deve ser sacanagem".

"Só que eles saaaaa-saaa-ssaaaa-são a minha cara!"

Chegamos em casa, paguei a corrida, e desejei-lhe boa sorte. Sob uma fina garoa, a tarde caía como um viaduto na cidade que nunca pára.

Escrito por Ana Ramiro às 15h00
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Revista Coyote

Revista Coyote número 13

(fonte: site Cronópios) 

 

Nova edição da revista de literatura e arte traz dossiê com Paulo Leminski, a prosa inédita de David Foster Wallace, poetas beduínas árabes, ensaio sobre poesia brasileira, por Cláudio Daniel, poemas do escocês Edwin Morgan traduzidos por Virna Teixeira, e muito mais.

 

 

COYOTE, revista editada em Londrina (PR), chega ao 13° número mantendo a proposta de enfocar o lado mais radical da literatura brasileira e de outros países. Este número traz um dossiê com Paulo Leminski (1944-1989), uma das personalidades mais instigantes da literatura brasileira contemporânea, em entrevista inédita concedida em 1982, além de crônicas e traduções pouco conhecidas, manuscritos e trechos de obras como Metaformose e Catatau.

O número também publica, pela primeira vez no Brasil, a prosa da David Foster Wallac e, considerado o "novo Joyce"   da escrita norte-americana, traduzidos por Caetano Waldrigues Galindo, além de apresentar, em primeira mão, a poesia do escocês Edwin Morgan, traduzido e apresentado por Virna Teixeira. Recuando no tempo, Alberto Mussa apresenta quatro poetas beduínas árabes dos séculos 16 e 17, traduzidas diretamente do árabe.   

Além das fotos de Edson Kumasaka, que também assina a capa, Coyote 13 apresenta os belos poemas visuais de Marcelo Sahea, a prosa de Péricles Prade, Silvana Guimarães e poemas inéditos de Paulo de Toledo, André Monteiro, do chileno Francisco Véjar, traduzidos por Cristiane Grando, e da paranaense Josely Vianna Baptista. Cláudio Daniel faz um levantamento crítico da poesia brasileira recente em seu ensaio "Pensando a Poesia Brasileira em Cinco Atos".

 

COYOTE 13 // 52 pgs. // R$ 10

Uma publicação da Coyote Edições. Vendas em livrarias de todo o país ou pelo site www.iluminuras.com.br  e-mail: revistacoyote@uol.com.br

Contatos: (11) 37313281 e (43) 33343299

 

 

COYOTE é uma publicação da Coyote Edições, editada pelos poetas Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak e Ademir Assunção. Projeto gráfico de Marcos Losnak e Joca Reiners Terron. Tem periodicidade trimestral e distribuição nacional (em livrarias) pela Editora Iluminuras. 

 



Escrito por Ana Ramiro às 10h50
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O templo tomba no cotovelo atado

do azulão que atroa frente à falange

jarro oleado

repositório de Caiabi

único pássaro branco que volteia pés firmes no chão

antítese do equilíbrio entre tons de breu e alume

 

no caminho apiloado de nuvens

navalhas e um sabor agridoce de primavera.

Escrito por Ana Ramiro às 03h10
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O GRITO

(Ana Ramiro)

 

Veste-se de mágoas

e os pés nus, finca-os

na inconstante paragem.

 

Habita o jaspe anódino,

Aquário de florespumas

por entre mão apáticas.

 

Em silêncio, compartilha

o fogo que consome a mortalha,

cinza de odres em brasa

incitando vertigens,

provocando miragens.

 

Singra o sangue

de um manancial verborrágico,

sorve homens liquefeitos

feito víboras e os vomita.

 

Ergue construções

como quem rompe veias

a dentadas,

e sempre que a rota

dos ventos serpenteia,

divide o catre com quem

tenha lhe oferecido

lume e ceia.

 

Verte-se em mares.

Escrito por Ana Ramiro às 03h07
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(foto: Joseph Astor)

 

 

MEIAS VERDADES
(Ana Ramiro)


Sândalos e róseos,
os aromas da
conquista,
mas sou dada
a zombarias e
pulo etapas

vou logo
aos tapas

Odores reais
me fascinam,
livres de máscaras
aromáticas,
águas de cheiro
que não lavam

frascos de hipocrisia

Abomino personalidades

escondidas sob cremes
anti-sinais.
Fujo de agulhas
que não tecem,
injetam,
e de vontades
que não sejam
minhas

Prefiro
o odor natural,
ir direto ao cerne,
sem pudícia

(pura malícia)

Cara limpa
jogo aberto
aventura
de viver

nua e crua



Escrito por Ana Ramiro às 00h56
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 O passado no freezer 
(Darayavaush)           
 
 
               Na construção de redes de metrô em cidades como Roma, Atenas ou Cidade do México, a cada metro que se avança, corre-se o risco de encontrar um novo vestígio arqueológico. E, toda vez que isso ocorre, a pergunta a ser feita é: ciência ou vida? Passado ou presente? Engenharia ou arqueologia? Essa pergunta é relativamente nova na história das idéias. Dizem que na primeira construção do Vaticano foram utilizadas pedras do Coliseu. Diversas civilizações do altiplano mexicano tinham o hábito de cobrir suas pirâmides com uma nova camada de pedras a cada 52 anos, que correspondia ao ponto de encontro entre os calendários civil e religioso. Aborígenes no interior da Austrália continuavam pintando suas cavernas até um passado muito recente, cobrindo com novas tintas algumas imagens de milhares de anos. A vida era dinâmica, o diálogo com os deuses não podia cessar. Um dia chegaram os arqueólogos. Viram aquelas pinturas no interior das cavernas. Fizeram a datação, e constataram que tinham milhares de anos. Era preciso preservar aquele patrimônio. Os índios foram confinados em uma reserva, longe dessas cavernas. Segundo os sábios arqueólogos europeus, tratava-se de uma tribo demasiado primitiva para compreender o valor daquele legado. Afastaram os aborígines de seu templo sagrado. Botaram ali uma catraca, e hoje turistas de todo o mundo apreciam esse passado congelado. A ciência venceu a vida.
 
               Processo semelhante ocorre com a preservação da natureza. Muitas vezes impede-se às populações locais usufruir de uma riqueza que pertenceu aos seus antepassados. Falta aos ambientalistas uma visão humanista. Mas essa é outra história.
 
               Como afirmou aquele que foi provavelmente o maior historiador brasileiro, Sérgio Buarque de Holanda, no prefácio a Visão do Paraíso: "esta espécie de taumaturgia, não pertence, em verdade, ao ofício do historiador, assim como não lhe pertence o querer erigir altares para o culto do passado. Se houvesse necessidade de forçar um símile, eu oporia aqui à figura do taumaturgo a do exorcista. Não sem pedantismo, mas com um bom grão de verdade, diria efetivamente que uma das missões do historiador, desde que se interesse pelas coisas de seu tempo - mas em caso contrário ainda pode se chamar historiador? -, consiste em procurar afugentar do presente os demônios da história".
 
               Gostar do passado não é privilégio dos museus; congelá-lo, cabe aos ignorantes.
 
              Há alguns anos, a NASA desenvolveu uma nave espacial capaz de identificar vida inteligente. Antes de lançá-la rumo ao espaço ignoto, lançaram-na em missão de teste ao redor da Terra. Resultado trazido pela nave: somente foi localizada vida inteligente na Austrália. Até hoje não se sabe se os inteligentes eram os aborígenes, os coalas, os cangurus ou os ornitorrincos.


Escrito por Ana Ramiro às 00h17
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Como não enlouquecer em condomínios

(Darayavaush)

 

Os primeiros hominídeos, do grupo Australopithecos, surgiram há cerca de 10 milhões de anos. O Homo Erectus, nosso irmão mais próximo, tem algo como 1,5 milhão de anos. O Homo Sapiens, filho caçula do clã, tem apenas 150 mil anos. As primeiras cidades foram o principal legado do Neolítico, quando o homem passou de caçador a criador, de coletor a agricultor, do nomadismo ao sedentarismo. Isso ocorreu há 5 mil anos. E foi somente no século XX que a população urbana superou a rural. Ora, esta linha do tempo nos dá uma idéia de que a vida nas cidades é algo extremamente recente para a espécie humana. Não sei quanto a vocês, mas eu me sinto estrangeiro na selva de pedra. Prefiro o verde ao cinza e sinto falta do cheiro da terra molhada.

 

Se tudo isto é tão recente, mais novo ainda é o conceito de condomínio vertical. Os prédios obrigam-nos a desenvolver novos padrões de convívio e habitabilidade. Como microcosmos, os edifícios têm seu próprio governo (o síndico é o chefe do executivo), um espaço de representação democrática (as assembléias), sua constituição (regimento interno). Os condôminos são os cidadãos e a voz da maioria é soberana.

 

Bem, voltemos ao mundo real. Antes de nossa vinda para Brasília, morávamos num prédio num bairro considerado nobre (Higienópolis) em São Paulo. A nobreza do bairro manifestou-se logo na primeira semana após a mudança, quando a área de serviço de nossos vizinhos, em frente à nossa (característica de alguns edifícios com mais de 30 anos de idade), foi tingida por um pacote de fezes. Um ato terrorista. Fomos os primeiros suspeitos. Como agravante, éramos recém-chegados, e portanto, de moral duvidosa. Para piorar a situação, os antigos moradores do nosso apartamento eram de origem árabe e as vítimas do atentado, um casal na 3ª idade, judeus ortodoxos. Sentimo-nos em plena Cisjordânia. Nós, como católicos não-praticantes, éramos simplesmente réus. Como o episódio nunca foi explicado, creio que seremos eternamente suspeitos.

 

A voz da maioria é soberana e a unaminidade é burra, como dizia o Nélson Rodrigues. Nem mesmo as palavras estão livres de suspeitas. Nosso edifício chamava-se Aché. Um nome francês (leia-se "achê". Pasmem: o síndico recebeu todo o apoio do zelador (um senhor evangélico) para remover o acento agudo que, pela suposta africanidade que conferia ao nome (Axé), colocava em risco a ilibada reputação do edifício. Passamos, então, a habitar o Edifício Ache e quando as visitas me perguntavam o que havia ocorrido com o acento, limitei-me a dizer que caiu. Preferí omitir as duas razões que levaram nosso síndico a censurar o Aché: ignorância e preconceito.

 

Preocupados com o crescente delírio de nossos coabitantes, pensamos em nos mudar para um condomínio horizontal. Sim, um condomínio de casas traria a distância necessária e suficiente para viver tranquilamente, longe da loucura alheia. Porém, um fato bizarro, relatado por um parente que reside em um condomínio fechado no interior de São Paulo, mostrou-nos que a Pasárgada só existe em verso. Seu vizinho ameaçava processá-lo sob a alegação de que o latido de seus cães lhe tirava o sono. Bem, só nos resta parafrasear Sartre: o inferno são os cachorros dos outros.

Escrito por Ana Ramiro às 10h43
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PIETÀ PAGÃ

(Ana Ramiro)

 

Le petit fils me confidencia:

- Vou cortar o cabelo.

Indignada, esbocei comparações esdrúxulas

como uma pálida Dalila.

Ele riu.

Argumentei que não o fizesse:

- Por mim!

(a defensora de belas melenas e reminiscências pueris)

Ele, resoluto.

Era um menino lindo, de grandes olhos negros,

buscando sua essência viril.

Ouvia ópera e fumava um tanto blasé.

Se pudesse, embalaria-o em meu colo,

essa pequena criança que não temia o escuro.

 



Escrito por Ana Ramiro às 02h00
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(crédito pela imagem: Fábio Fraccarolli)

TIBURCIANDO

(Darayavaush)

Lá em Guará (*), sou amigo do seu Tibúrcio. Arrendatário de uma pequena fazenda, dono de um sotaque caipira que trouxe de sua infância no interior das Geraes e de uma calva branca, como um queijo mineiro - pois nunca viu sol, protegida que sempre esteve pelo chapeuzinho de palha- seu Tibúrcio é mesmo um sujeito que poderia morar em qualquer livro do Guimarães...

Sua vida sempre foi vivida no tempo cíclico (que se opõe ao tempo linear burguês, tempo de "progresso"), cada dia consistindo em tirar leite das vacas antes do sol nascer, levar as vacas pra lá pela manhã e, no final do dia, trazer as vacas pra cá.

Durante o dia, é só filosofia no seu estado mais puro. Trafegando por temas que vão da criação do mundo ao apocalipse, passando pela existência de Deus ou pelos paradoxos do progresso e do consumo, seu Tibúrcio não deixa escapar nada. Adoro conversar com ele (nem cito sua esposa e filhos porque senão iria longe...), aprendo muito, repenso conceitos sobre a sociedade, viajo ao Brasil colonial e me afasto de tudo o que é produto da civilização - o que é essencial para melhor percebê-la ( já dizia Nietzsche sobre o "afastamento necessário").

Seu Tibúrcio é um filósofo analfabeto, desses tantos que vivem pelo interior do Brasil. São capazes de ouvir a voz do vento (ou o recado do morro), linguagem esta tão estranha a nós, bichos do asfalto. Uma cusparada no chão de terra batida do seu terraço, uma mascadinha para assentar o cigarrinho de palha e ninguém mais segura o Tibúrcio quando ele dá pra pensar. Ele não se baseia no mundo dos livros, não passou pelo Iluminismo, nem pelo heliocentrismo.

Para ele, as dúvidas podem ser do tipo: "Meu 'fio', você que é estudado, me diz uma coisa: esse mundão nosso de Deus... tem fim?". E dá-lhe explicar que o mundo é esférico, como uma laranja e que se "eu for em linha reta, seu Búrcio, e descer por onde acaba o horizonte, depois de onde a vista não chega, vou andar, andar, passar aqui por debaixo do curral, lá perto do Japão, andar mais um pouco e depois aparecer lá no outro horizonte, ali detrás, dando então uma volta no mundo". E ele, sorumbático: "É, rapaz, se a gente começar a pensar demais, a gente fica louco!".

Assim é o Tibúrcio. O resto é o resto.

(*) Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, estado de São Paulo.


Daraiavaush, diplomata, engenheiro, (quase) historiador e prosador dos bons, passa a ser um "outro eu" deste blog.



Escrito por Ana Ramiro às 01h43
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LIÇÃO DO VENTO

(Ana Ramiro)

Experimentar o vento em nuances é faculdade das mais sábias. O vento tem sabor de palavras dispersas, microcosmos de frases, lâminas em movimento.

Entender o que ele diz em rajadas ou através do não-dizer, no silêncio, é tangenciar a linha do tempo, saborear a própria história em doses homeopáticas.

Tocar o vento é o mesmo que tocar a luz, sentir o arfar de asas percorrendo o sinuoso caminho alveolar ou compartilhar as reminiscências de um beijo.

Alimentar-se de vento não é sexo, nem sombra ou lamento.

Viver de vento é permanência.

Morrer é pensamento.



Escrito por Ana Ramiro às 18h40
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Brasília, terra da exclusão

(Darayavaush)

 

O tema da exclusão na capital federal já serviu de inspiração para inúmeras teses acadêmicas. No entanto, não é necessário possuir um bacharelado em arquitetura e urbanismo para se assombrar com o que se vê ao redor. Aliás, boa parte de Brasília foi “feita para impressionar”, como é o caso do Eixo Monumental. Os ministérios se situam de forma simétrica ao longo dessa que, segundo dizem, é a avenida mais larga do mundo. Sim, mais larga que a famosa “9 de Julio” portenha, considerando evidentemente o imenso gramado entre as pistas Sul e Norte da avenida brasiliense. E para que um gramado tão largo entre os ministérios e em frente ao Congresso, perguntam meus olhos? Teria o urbanista imaginado um espaço para a participação popular? Nesse caso, teria sido necessário também imaginar um povo, diz meu coração, uma vez que a nova cidade fugia de sua gente. Claro, no futuro obviamente haveria um povo. No entanto, a cidade mal engatinhava, e esse imenso gramado foi muito útil ao controle de eventuais manifestações populares pelo regime militar. Assim como a Paris reformulada por Haussman, Brasília mostrava-se perfeita para evitar uma nova queda da Bastilha.

            Existe em Brasília uma padronização na dimensão e na altura dos edifícios residenciais. Aqui, a vocação comunista de arquitetos e urbanistas também se faz presente. Existem três padrões básicos, que se repetem ad infinitum. São eles: os prédios residenciais de 6 andares, supostamente habitados pelos homens-bons; os prédios de 3 andares – geralmente sem elevador – onde vivem os menos favorecidos (o termo é razoavelmente preciso, uma vez que vivemos na cultura do favor); finalmente, os setores comerciais. Mas um setor comercial é um dos 3 tipos de prédios residenciais? Sim, embora aqui não tenhamos a genial mão do arquiteto, mas a mão invisível do mercado. São reservados aos ainda menos favorecidos, que não puderam morar nos prédios de 3 andares. Na realidade, esta distinção entre homens-bons, menos favorecidos e ainda menos favorecidos, muito embora caricatural, serve a um propósito, qual seja o de esclarecer que o modelo pretensamente comunista de Brasília supõe que alguns cidadãos são mais iguais que outros. No entanto, nada se equipara ao contraste entre Brasília e algumas de suas cidades-satélite. Em paragens como Paranoá, perto da represa que deu origem ao lago artificial, não há o traço do arquiteto. Ali, tudo é caos, tudo é improviso. Ruas sem asfalto, casas sem água ou esgoto. Vive-se ao deus-dará. Eventuais apologetas diriam que os cérebros ilustres dos anos JK não poderiam prever a dimensão da desigualdade no Brasil do século XXI. Puro engano. Fotos da época da inauguração de Brasília já mostram uma favela em pleno Lago Paranoá – obviamente, no período em que aquele sertão ainda não virara mar -, a apenas algumas centenas de metros do Palácio do Planalto. Aquele núcleo populacional, uma vez submerso, mudou-se para trás da represa, dando origem à atual cidade de Paranoá. Portanto, o lago embelezou Brasília de forma inusitada. A miséria não foi mitigada, foi afastada para longe das retinas dos “eleitos” – em sentido bíblico-eleitoral - para habitar a terra prometida de onde jorrariam o leite e o mel. Hoje, um mergulho no lago Paranoá certamente seria frutífero aos arqueólogos de plantão. Desde que, obviamente, se interessem pelas coisas de seu tempo – utilizando as palavras do mestre Sérgio Buarque de Holanda.

             Concluo minha fábula compartilhando um fato trágico. Não, ninguém morreu, talvez apenas a fé de algumas crianças em um futuro melhor. Era uma vez um grupo de retirantes que acampava perto de uma quadra habitada pelos homens-bons de Brasília. Os pobres-diabos estavam de passagem, como aliás soíam fazer por toda a vida. Os desvalidos tinham um punhado de filhos. Filhos esses que descobriram, maravilhados, um pequeno parque freqüentado pelos filhos dos homens-bons, doravante chamados crianças. Os filhos dos indigentes, doravante chamados menores, não puderam resistir à magia do balanço, do escorregador e da gangorra. Brincaram. Viveram. Existiram. Esqueceram-se de que eram menores e de que não trouxeram as credenciais para gozar esta vida. Pois. E de repente, quando já lhes parecia que o tempo era indolor, eis que a realidade mostrou sua face mais tacanha e egoísta. Uma, duas, três viaturas policiais chegaram ao local do crime de pensar que se é o que não se é, sirenes a gritar, e a farra acabou. Restaurou-se a ordem, como de hábito. Disseram-lhes que os direitos dos “menores” acabavam onde começavam os direitos das “crianças”. O que era como dizer que aos menores restava o nada. Absoluto. Foram. E não mais voltaram. Hoje crescem, e se preparam para um rito de passagem que os aguarda: ao completar 18 anos, deixarão de ser menores para investirem-se elementos. E viva o futuro.

PS.: embora absurda, a distinção entre menores e crianças já ganhou ares de normalidade na sociedade brasileira. Um jornal de Minas Gerais publicou a seguinte manchete: “Menor assalta criança em bairro de classe média de BH”.



Escrito por Ana Ramiro às 19h51
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DESEJOS DE GAIA

 

(Ana Ramiro)

 

Rude amazona eu sou,
a que em teus sonhos vagueia,
a que procura teu sexo,
e sôfrega, lambe teu ventre,
morde teu lábio e orelha,
qual indigitada serpente.

Sou bela, a meu modo,
fera fugidia morando no caos
da tua mente.
Não tenho nome, nem sombra
ou mesmo dono,
sou apenas boca, seio
e coxas valentes,
(a te cavalgar noite após noite).

E sendo eu, assim tão amante,
espectro de fêmea liberta e ardente.
Por que insistes em tua vida deserta?
Por que recuas e me deixas ausente?
Por que, amado, despertas?



Escrito por Ana Ramiro às 02h25
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UM FILME...FALADO

(Ana Ramiro)

 

Após algumas tentativas frustadas, finalmente assisti "Um Filme Falado" de Manoel de Oliveira. Minhas expectativas, antecipo, não eram as melhores, já que, da filmografia do diretor português, gosto unicamente do filme com Marcello Mastroianni, "Viagem ao Princípio do Mundo", que assisti com olhos psicanalíticos, uma vez que a história do filme se mistura à história de minhas próprias raízes lusitanas, além do viés "tiete",  já que considero o Marcello um dos homens mais bonitos do cinema.

Entre os comentários da platéia de amigos que já haviam assistido ao filme, empate técnico. Alguns odiaram e, dos que apreciaram o "diário de bordo" manuelino, muitos acabaram tecendo mais relatos sobre suas próprias viagens aos locais mostrados no filme do que enfatizaram as qualidades da obra.

Do filme, de que gostei pouco, com suas longas e enfadonhas tomadas didáticas sobre a história das civilizações ocidentais (sim, porque a empreitada do "navegador" Manuel de Oliveira não tomou o caminho das Índias, nem tampouco da China, civilizações esquecidas pelos livros de história do Ocidente), ficou-me a impressão de que teríamos hoje um novo Cabo das Tormentas, situado em um ponto desconhecido do mundo árabe. Nada mais maniqueísta, barroco e lusitano.

No navio comandado pelo americano John Malkovitch, vemos um desfile de passageiras ilustres, como a francesa Catherine Deneuve, a italiana Stefania Sandrelli e a grega Irene Papas, cada qual cultuando suas glórias passadas, que vão se confundir com as glórias de suas pátrias. Vemos o império greco-romano num diálogo sincrônico com a França da Revolução Francesa, todas é claro, cheias de charme, ironia e despeito para com o jovem comandante,numa alusão à atual hegemonia norte-americana, tão clara como as águas do Egeu.

Não tecerei comentários sobre a ótica discriminatória do diretor português, tão somente porque com os seus 90 e tantos anos, Manuel de Oliveira deixa de fazer cinema, para fazer a história do cinema, nem tampouco, expressar a minha surpresa pelo final desprovido de sentido, que nada explica, nada suscita.

Muito embora "Um Filme Falado" não tenha representado para mim, mais do que uma sessão da tarde o faria, foi por intermédio dele, que descobri com longos anos de atraso, tenho que admitir, as atrizes Stefania Sandrelli e Irene Papas. Duas musas da década de 60, de filmes do naipe de "C´eravamo tanti amati" e "Zorba, o grego", que acabo de assistir, estes sim com prazer, no conforto de meu home-theater.



Escrito por Ana Ramiro às 00h40
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MOSTRA PRIMEIROS FILMES - ALIANÇA FRANCESA DE BRASÍLIA

Confira a programação

Aliança Francesa de Brasília - Cultural
www.afbrasilia.org.br
tel: (61) 3242-7500



Escrito por Ana Ramiro às 22h42
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